Sanepar (SAPR11): R$ 4 Bilhões em Precatórios e Possível Privatização – Vale o Risco?

A Companhia de Saneamento do Paraná está no centro das atenções do mercado financeiro. Com valorização de 37,76% no ano e cotada a R$ 35,25, a SAPR11 combina um ingrediente explosivo: recebeu R$ 4 bilhões em precatórios (equivalente a 40% do seu valor de mercado) e existe forte especulação sobre sua privatização pelo governador Ratinho Junior. Mas há um porém importante: a maior parte desses bilhões não ficará com os acionistas. Então, a Sanepar é uma oportunidade imperdível ou uma armadilha cara? Vamos destrinchar os números, entender os gatilhos de valorização e avaliar se vale a pena investir agora.

A Bomba dos Precatórios: R$ 4 Bilhões que Não São Bem Seus

Em setembro de 2025, a Sanepar recebeu R$ 4,04 bilhões em precatórios da União, referentes a tributos recolhidos indevidamente. O valor representa 43,5% do atual valor de mercado da companhia, um montante absolutamente gigantesco que poderia revolucionar os dividendos da empresa.

Mas existe um detalhe crucial que muitos investidores desavisados ignoram: a maior parte desse dinheiro não ficará com a Sanepar. A Agência Reguladora do Paraná determina que 75% dos valores recebidos pela companhia em indenizações devem ser compartilhados com os consumidores, o que deve resultar em redução de tarifas ou abatimento nas contas dos paranaenses.

Além disso, parte do valor será usada para pagamento de honorários advocatícios. Nos cálculos da Genial Investimentos, sobrariam aproximadamente R$ 875 milhões para a companhia que poderiam ser usados para remunerar os acionistas ou em investimentos de expansão.

Vamos fazer as contas: R$ 4 bilhões recebidos, menos 75% que vão para os consumidores (R$ 3 bilhões), menos honorários advocatícios e impostos já deduzidos, restam cerca de R$ 875 milhões. Dividindo pelo número de ações, isso representaria cerca de R$ 2,50 a R$ 3,00 por ação em dividendos extraordinários potenciais.

É um valor relevante? Sim. É revolucionário? Não tanto quanto parecia à primeira vista.

O Resultado do 3T25: Luz Amarela Acesa

A Sanepar divulgou os resultados do terceiro trimestre de 2025 na semana passada, e os números trouxeram preocupação para alguns analistas. A companhia apresentou lucro líquido de R$ 246,4 milhões no terceiro trimestre de 2025, queda de 34,7% em relação ao 3T24.

O EBITDA somou R$ 555,6 milhões, recuo de 26,8% na comparação anual, com margem EBITDA caindo para 30,8% (queda de 13,6 pontos percentuais). A receita líquida cresceu apenas 5,5%, para R$ 1,804 bilhão, um crescimento modesto para uma empresa do setor de utilidade pública.

O Que Explica a Queda?

O resultado veio pressionado por itens não recorrentes, como provisões cíveis e regulatórias, despesas associadas ao início das PPPs e ajustes contábeis relacionados aos precatórios, que ofuscaram uma performance operacional estruturalmente sólida.

Os custos e despesas operacionais subiram 28,4%, principalmente por:

  • Maiores provisões para contingências (alta de 121,7% ano a ano)
  • Aumento em serviços de operações de esgoto
  • Serviços de terceiros mais caros (alta de 16,9%)
  • Maior custo com materiais (alta de 10,5%)

O lado positivo é que houve uma melhora significativa na inadimplência e redução de 2,1% nos custos com pessoal, beneficiados pelo PDV (Plano de Demissão Voluntária) e menores indenizações trabalhistas.

O Ponto Mais Positivo: Desalavancagem Brutal

Se há algo para celebrar no resultado, é a gestão da dívida. A dívida líquida apresentou uma forte queda de 71% no período, trazendo a alavancagem (dívida líquida/EBITDA) para 0,5x, versus 1,7x no 3T24.

Essa desalavancagem impressionante coloca a Sanepar em posição financeira confortabilíssima. Com dívida praticamente zerada e capacidade de geração de caixa sólida, a empresa tem amplo espaço para distribuir dividendos ou acelerar investimentos.

Os investimentos totalizaram R$ 765,1 milhões no trimestre, crescimento robusto de 52,1%, demonstrando que a companhia está acelerando obras de expansão e modernização operacional.

A Privatização: Especulação ou Realidade?

Este é o gatilho mais quente e controverso da tese de investimento em Sanepar. Começou a circular a notícia de que o governo estaria levando à Assembleia Legislativa, ainda em dezembro de 2024, projeto visando a privatização da Sanepar, lembrando que, no último mandato do atual governador do Paraná, Ratinho Junior, a Copel já foi privatizada.

O governador Ratinho Junior tem um histórico interessante: prometeu publicamente em 2019 que não venderia a Copel nem a Sanepar. Poucos anos depois, privatizou a Copel. Agora, mesmo negando oficialmente qualquer plano de privatização da Sanepar, o mercado não acredita muito nessas negativas.

Por Que a Privatização Faz Sentido Economicamente?

A gestora Miles Capital, que acertou ao investir na Sabesp antes da privatização, vê a Sanepar como “uma das maiores assimetrias com que já nos deparamos”. A Sanepar negocia a um valuation extremamente descontado e pode passar por uma expansão de múltiplo significativa caso melhore sua eficiência operacional, seja por meio de um turnaround na gestão, seja por meio da privatização.

A ineficiência da Sanepar fica clara quando comparada com outras empresas do setor. Enquanto a Copasa opera com um EBITDA equivalente a 95% do EBITDA regulatório e a Sabesp com perto de 90%, a Sanepar opera com apenas 76% do EBITDA regulatório.

Empresas como Cemig e Copasa saíram de resultados equivalentes a 60% de seus EBITDAs regulatórios para 105%. A Copel, privatizada pelo governo do Paraná, foi de 55% para 120% em seu braço de distribuição. A Sabesp saiu de 70% para 90% nos últimos 18 meses.

“Em se adequando às métricas de eficiência do setor privado, a Sanepar poderia ter uma geração de caixa 60% maior que a atual e consequentemente uma maior capacidade de investimento”, afirma a Miles Capital.

Cenário de Privatização: Upside de 131%

No cenário que a Miles considera mais lógico economicamente, prevê-se um re-rating significativo do múltiplo da Sanepar para algo entre 0,9x e 1,2x RAB (cenários dela se tornando uma estatal eficiente ou passando por um processo de desestatização), o que implicaria num upside de 131% no ponto médio desse range.

A XP Investimentos é ainda mais otimista: tem recomendação de Compra para Sanepar com um preço-alvo para o ano de 2026 de R$ 45,90/ação, representando potencial de valorização de 30,2% em relação à cotação atual.

Quem Compraria a Sanepar?

Não faltam interessados. Empresas como Aegea, Equatorial e Iguá são candidatas naturais devido ao histórico no setor e à atração do ativo. Radamés Casseb, diretor-executivo da Aegea, disse recentemente à Folha de S. Paulo: “Vamos tentar, com essa etapa de aprendizado gerado na Sabesp, nos capacitar para outras jornadas, talvez como Copasa e Sanepar”.

O setor de saneamento é considerado o “filé mignon dos investimentos” porque não há crise que derrube água e esgoto regulados. É um investimento seguro e resiliente, especialmente atrativo em um momento em que o Brasil precisa universalizar o saneamento básico até 2033.

Valuation: Barata ou Cara?

A Sanepar apresenta múltiplos extremamente baixos comparados aos pares do setor. A ação está cotada a R$ 35,25, com um P/L de 4,82, representando um desvio de 382% em relação ao seu P/L médio histórico de 1,00.

Comparando com pares:

  • Sanepar: EV/EBITDA de 4,4x e P/L de 5x
  • Copasa: EV/EBITDA de 5,9x e P/L de 6,6x
  • Sabesp: EV/EBITDA de 7,2x e P/L de 12,5x

A Sanepar está negociando com desconto significativo em relação aos pares, o que pode representar oportunidade ou armadilha de valor, dependendo de como os próximos eventos se desenrolarem.

Dividendos: O Que Esperar?

No último ano, a ação distribuiu R$ 1,55 em dividendos, resultando em um Dividend Yield de 6,33%. Não é um rendimento espetacular, especialmente com a Selic a 15% tornando a renda fixa extremamente competitiva.

Porém, o jogo muda completamente se considerarmos os dividendos extraordinários potenciais. Com os R$ 875 milhões que podem sobrar dos precatórios, a empresa poderia distribuir cerca de R$ 2,50 a R$ 3,00 por ação em proventos extraordinários, elevando o yield total para algo próximo de 15% a 17%.

A estrutura de capital confortável com alavancagem de apenas 0,5x abre espaço para uma eventual distribuição extraordinária de dividendos, especialmente após o reconhecimento dos valores referentes aos precatórios, destacam analistas da Genial.

A grande incógnita é: quando virão esses dividendos extraordinários e qual será o valor exato? A Sanepar ainda aguarda definição da Agepar sobre o tratamento regulatório específico do precatório.

Riscos que Não Podem Ser Ignorados

Risco Regulatório

O maior risco da Sanepar é regulatório. A Agepar (agência reguladora estadual) tem histórico de decisões que nem sempre favorecem os acionistas. A determinação de que 75% dos precatórios sejam repassados aos consumidores é um exemplo claro.

Ineficiência Operacional

A Sanepar foi a única estatal de capital aberto que não seguiu a tendência de melhora da eficiência nos últimos seis anos. Isso é um sinal vermelho importante. Sem privatização ou mudança radical de gestão, a empresa pode continuar gerando valor abaixo do potencial.

Incerteza Política

A privatização depende completamente da vontade política de Ratinho Junior, que é visto como potencial candidato à presidência em 2026. Decisões podem ser tomadas ou adiadas por motivos políticos, criando volatilidade adicional nas ações.

Pressão de Custos

O resultado do 3T25 mostrou pressão significativa de custos, com despesas operacionais crescendo muito acima da receita. Se essa tendência persistir, as margens continuarão se deteriorando, prejudicando a rentabilidade.

Então, Vale a Pena Investir?

A resposta depende do seu perfil e horizonte de investimento.

Para investidores agressivos com horizonte de 2 a 3 anos:

A tese de privatização é atraente. Se ela se concretizar, o potencial de upside é de 80% a 130%, segundo diferentes casas de análise. Mesmo sem privatização, se a empresa melhorar sua eficiência operacional para níveis de mercado, há espaço para valorização de 30% a 50%.

Os dividendos extraordinários dos precatórios são um bônus adicional que pode render 8% a 10% extras nos próximos 12 meses.

Para investidores conservadores:

Há razões para cautela. A empresa tem operado com ineficiência crônica, a pressão de custos está aumentando, e não há garantia de que a privatização acontecerá. Com dividend yield regular de apenas 6,3% e Selic a 15%, a renda fixa oferece retorno similar com zero risco.

Para investidores moderados:

Uma posição pequena (5% a 10% da carteira) pode fazer sentido como aposta em evento especial. Se a privatização avançar ou os dividendos extraordinários forem confirmados, você participa dos ganhos. Se não acontecer nada, a perda será limitada.

Alternativas no Setor de Saneamento

Se você gosta do setor mas tem dúvidas sobre Sanepar, existem alternativas:

Sabesp (SBSP3): Já privatizada, com gestão profissional e plano ambicioso de investimentos. Negocia a múltiplos mais altos, mas com menos risco de execução.

Copasa (CSMG3): Também no radar de possível privatização em Minas Gerais, com fundamentos operacionais melhores que a Sanepar.

Iguá Saneamento (IGUAXI): Empresa privada com gestão eficiente e crescimento acelerado via aquisições.

O Veredito Final

A Sanepar é uma ação de evento. Se você acredita que a privatização vai acontecer e está disposto a suportar a volatilidade até lá, o risco-retorno pode ser atraente. O valuation descontado oferece alguma margem de segurança, e os dividendos extraordinários dos precatórios são um catalisador de curto prazo.

No entanto, não é uma ação para colocar uma parcela grande da carteira. Os riscos são reais: ineficiência operacional, incerteza regulatória e dependência de decisões políticas.

A XP Investimentos resume bem: “A tese da Sanepar consiste em um valuation atrativo com bom carrego que não depende de uma privatização, mas que certamente seria um grande impulsionador de valor”.

Para quem já está investido, faz sentido manter. Para quem está considerando entrar, uma posição pequena pode valer a pena, especialmente se a ação corrigir para a faixa de R$ 32 a R$ 33. Acima de R$ 36, o risco-retorno fica menos favorável.

O mais importante: não compre Sanepar pensando que os R$ 4 bilhões em precatórios vão virar dividendos gordos. A maior parte desse dinheiro já tem destino certo, e não é o bolso do acionista. Se você entende isso e ainda assim vê valor na ação, pode ser uma aposta interessante. Se esperava uma chuva de dividendos, melhor procurar outras oportunidades.

Este conteúdo é informativo e não constitui recomendação de compra ou venda de ativos ou moedas.

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